MONÓLOGO — TIPO 9
“O LUGAR ONDE EU ME APAGUEI”
(Luz baixa. Corpo relaxado demais. Voz mansa — mas cansada.)
Sou Tipo 9.
E antes de abrir meu coração, eu preciso dizer uma coisa:
tenham paciência comigo.
Mais do que me entenderem,
eu peço que me sintam.
Eu não vim com ideias prontas.
Não trouxe um discurso fechado.
O que estou oferecendo a vocês é a minha verdade —
e ela surge enquanto falo.
Vou dizer o que me vier à cabeça,
do jeito que vier.
E fiquem à vontade para me interromper,
se em algum momento precisarem perguntar algo.
Meu dilema não é falta de força.
É falta de ligação.
É a ausência de troca viva.
Antes de falar, eu preciso me adaptar.
Aterrizar.
Sentir o ambiente.
Sentir vocês.
Só depois disso as palavras começam a nascer.
Não é a história de alguém que não sabia quem era,
mas de alguém que aprendeu cedo
que ser inteiro causava conflito.
E então, para preservar a paz,
eu fui ficando menor.
Menor no tom,
menor no desejo,
menor na presença.
Aprendi que paz era não incomodar.
Quando a casa ficava tensa, eu virava silêncio.
Quando alguém gritava, eu virava ausência.
Quando o conflito surgia, eu me dissolvia.
E todos diziam: “Que criança boazinha.”
Ninguém percebeu que eu estava treinando a arte de desaparecer.
(pausa)
Eu cresci assim: sentando no fundo da própria vida, esperando que os outros decidissem qual era a próxima cena.
Eu dizia “tanto faz” como quem diz “não me escolhe.”
Como quem pede, em silêncio:
“Não me coloca no centro.”
“Não me dá trabalho.”
“Não me obriga a existir demais.”
Porque escolher era correr o risco de desagradar.
E desagradar, na minha infância, significava ser rejeitado, criticado,
perder o vínculo,
perder o lugar,
perder o amor.
Eu tinha pânico de ser exposto.
Pânico de competir,
de enfrentar,
de batalhar.
Não por fraqueza —
mas porque, desde cedo, eu senti que esse era um mundo que vence gritando, empurrando, ferindo.
E isso sempre me pareceu violento demais para a minha alma.
Eu nunca acreditei nesse jeito agressivo de fazer as coisas.
Sempre achei que deveria haver mais espaço
para a escuta,
para o tempo,
para o olhar que alcança quem não disputa cena,
quem não se impõe,
quem não sabe lutar com cotovelos.
Mas o mundo que eu via era autoritário, duro, perigoso.
E eu, pequeno, sensível, quieto,
aprendi que não sobreviveria ali sendo inteiro.
Então eu me tornei fácil.
Maleável.
Adaptável demais.
Preferi ser acordo, a ser verdade.
E aqui está o segredo que quase ninguém vê:
eu sofro porque ninguém nunca me perguntou o que eu queria de verdade —
e quando perguntavam,
eu já tinha esquecido a língua do desejo.
Sofro porque fui apagando tanto os meus limites
que um dia acordei sem saber
onde eu terminava
e onde os outros começavam.
Sofro porque me acostumei a ser chão. E ninguém imagina o quanto o chão também cansa de sustentar.
Sofro diante da impossibilidade de me comunicar com quem eu amo.
Não porque eu não sinta. Mas porque eu não sei como atravessar essas couraças, essas personagens duras, autoritárias, insensíveis,
que cospem regras e pisam, sem perceber, sobre a mais elevada poesia.
Eu nunca soube lutar nesse idioma. Nunca aprendi a falar alto, a disputar espaço, a vencer pela força.
Enquanto os outros treinavam o embate, eu treinava a adaptação. Enquanto aprendiam a se impor,
eu aprendia a me retirar.
Quando tentei gritar, não saiu firme — saiu tarde demais, desorganizado, carregado de tudo o que eu engoli por anos.
E aí não me escutaram. Se assustaram.
Meu grito não soava legítimo, soava exagerado, histérico, fora de tom, quase indecente.
Não viram alguém tentando existir. Viram alguém que “perdeu o controle”.
E isso doeu mais do que o silêncio.
Porque ali eu aprendi outra lição cruel: se fico calado, me apagam; se falo alto, me temem.
Então eu voltei para o único lugar que parecia seguro: o meio-termo, o apagamento elegante, o “tanto faz” que não incomoda nem pede tradução.
E assim fui ficando manso, não por paz, mas por medo de enlouquecer aos olhos dos outros.
Optei pela máscara
de estar sempre disponível, sempre acessível, sempre neutro, sempre "tudo bem".
A máscara do “tanto faz”.
E cada “tanto faz” era um pequeno abandono de mim, um passo atrás da própria vida, disfarçado de gentileza.
Engolia vontades como quem engole o choro para não desarrumar a sala, para não quebrar o clima, para não virar problema.
Porque, na minha infância, amar significava não criar ondas.
E sobreviver significava aprender a desaparecer sem fazer barulho.
Ser amado, era ser fácil de lidar.
(respiração longa)
Mas tem uma raiva quieta morando aqui. Não faz barulho. Não avisa.
É um vulcão que se passa por adormecido, coberto de grama,
aparentemente inofensivo.
Sou campo minado. Tudo parece seguro até que alguém pisa no lugar errado — às vezes sou eu mesmo.
E eu juro: tenho medo.
Medo de um dia explodir e me desintegrar. Medo de virar um homem-bomba emocional — é horrível.
Não tem palco,
não tem linguagem,
não sabe sair.
Ela se infiltra. Vira apatia. Vira esquecimento de mim. Vira um “depois eu vejo” que dura anos.
O perigo não é a violência visível.
O perigo é a energia vital
que se volta contra o próprio corpo,
contra o desejo,
contra o tempo de viver.
Porque quando a raiva não encontra saída,
ela não desaparece.
Ela se instala.
Ela se esconde na procrastinação,
no cansaço sem causa,
no corpo que pesa
quando eu preciso agir.
Não é preguiça.
É luto.
quando queria discordar.
(pausa)
O mundo me chama de calmo,
mas não sabe
quantas guerras eu evitei
às custas de mim.
Eu confundi paz com anestesia.
Confundi harmonia com abandono próprio.
E o preço foi alto:
fui ficando distante
do que eu queria,
do que eu sentia,
do que eu sou.
(silêncio)
Hoje eu entendo: meu maior conflito não é com o mundo. É comigo, toda vez que eu me esqueço para que os outros fiquem bem.
Mas escuta:
eu ainda estou aqui.
Debaixo das camadas de conforto,
do hábito,
da rotina que me adormece,
existe um pulso.
Um desejo simples.
Uma vontade legítima.
(olhar levanta)
E talvez o meu caminho não seja fazer barulho, nem virar tempestade.
Talvez seja apenas existir inteiro sem pedir licença.
Dizer “não” sem culpa.
Dizer “sim” sem me perder.
(pausa final)
Eu sou Tipo 9.
E hoje…
eu escolho acordar.
Mesmo que a paz, desta vez, precise nascer de um conflito verdadeiro.
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