Tipo 4 teatro

 Monólogo — O Quarto Que Nunca Coube em Mim

(Tipo 4 — trágico-cômico, em primeira pessoa)

Preciso avisar.
O que vou dizer aqui não é uma história triste.
É algo mais difícil de explicar.

É uma história profunda,
dessas que a gente carrega sem saber onde guardar.

Não estou falando de drama para ser visto.
Estou falando de algo íntimo, quase invisível,
que foi moldando a forma como eu sinto, amo
e me reconheço no mundo.

Não houve um grande trauma.
Houve um clima.
Uma sensação constante de desalinhamento,
como se eu estivesse sempre um pouco fora do lugar,
mesmo quando tudo parecia certo.

Vou falar da experiência de ser diferente
antes mesmo de ter linguagem para isso.
Da estranheza de estar dentro
e, ao mesmo tempo, nunca completamente incluído.

Não trago respostas.
Nunca trouxe.
Trago lembranças emocionais.
Trago a atmosfera que ficou.

E se em algum momento soar exagerado,
não é encenação.
É intensidade não traduzida.

Agora eu posso começar.

Eu nasci com uma falta.
Não dessas que se resolvem com leite quente ou colo.
Era uma falta sem nome,
dessas que chegam antes da palavra.

Quando me perguntavam “o que foi?”,
eu não sabia responder —
porque eu era a pergunta.

Desde pequeno eu percebia:
o mundo vinha com manual,
e o meu manual tinha páginas rasgadas.

Na escola, eu sofria sofria muito.

Tudo o que eu sentia vinha grande demais,
vivo demais,
excessivo demais
para caber nas frases pequenas que o mundo oferecia.

Enquanto os outros brincavam,
eu encenava batalhas internas.
Enquanto riam,
algo em mim afundava.

Eu não “sentia um pouco”.
Eu sentia tudo.
Ao mesmo tempo.
Sem legenda.
Sem pausa.

Eu precisava diminuir a voz do que ardia em mim
para não parecer estranho.
Precisava dobrar emoções,
esconder gestos,
alisar a alma
até que coubesse no recreio.

E isso não é infância difícil —
é sobrevivência sensível.

Porque viver traduzindo o infinito
para caber no normal
esgota.
Cansa.
Quebra por dentro.

E ninguém aplaude quem passa a infância
aprendendo a se calar para continuar existindo.

Eu cresci achando que havia algo errado comigo —
mas não errado do tipo “quebrado”.
Errado do tipo raro, esquisito.
E quem é raro aprende cedo:
ou vira joia,
ou vira aberração.

Eu tentei ser normal.
Oh, como tentei!
Usei roupas neutras, sorrisos moderados, respostas adequadas.
Durou pouco.
Minha alma rasgava a fantasia por dentro.

Então fiz o que todo Tipo 4 faz quando não cabe:
transformei dor em estética.
Se eu ia sofrer,
que fosse bonito.
Se eu ia sangrar,
que fosse poético.
Se ninguém me entendia,
pelo menos que me sentissem.

Mas há um preço.
Sempre há.

Eu comecei a me comparar.
Ah, a comparação…
essa lâmina elegante que corta sem fazer barulho.
Eu olhava os outros vivendo, produzindo, amando com facilidade,
e constatava:
“Eles têm algo que eu nunca terei.”

Eu invejava não o sucesso,
mas a naturalidade.
A leveza de existir sem precisar justificar cada emoção, gesto, atitude.

E então vinha o drama interno:
um dia me sentia especial, escolhido, profundo.
No outro, um erro cósmico,
um excesso de sensibilidade jogado num mundo bruto, torpe, ignorante, cruel.

Eu me apaixonei muitas vezes —
não por pessoas,
mas por possibilidades.
Pelo que poderia ser.
E quando o real aparecia… me arrasava
ah… o real, nunca competiu com meu imaginário.

Fui chamado de intenso, dramático, complicado, louco...
Como se sentir fosse um defeito de fabricação.

Eu me recolhi.
Fiquei melancólico.

Fiz da tristeza uma casa habitável —
mobiliada com músicas tristes,
lembranças antigas,
comidinhas e guloseimas da vovó, da mama,
aquelas tentações irresistíveis das padarias da esquina.
Havia companhia:
Fifi, minha cachorra,
Fofo, meu gato e minhas plantas e flores...
Meus amigos, nas redes sociais...

E no ar — sempre —
pairava essa sensação persistente
de que algo essencial
estava para meu desgosto um passo além,
como um nome esquecido na ponta da língua,
como um destino que me chamava
e nunca se deixava alcançar.

Mas deixa eu te contar uma coisa —
(aproxima-se, voz baixa)

A dor do Tipo 4 não é querer atenção.
É querer pertencer sem ter que amputar a alma.

Nós não queremos ser únicos por vaidade.
Queremos ser únicos porque é assim que viemos —
com excesso, com profundidade,
com um coração que não sabe viver pela metade.

O que dói é esse lado que ninguém acolhe.
O lado sem nome.
O lado que não cabe em conversa leve,
nem em conselhos rápidos,
nem em “vai passar”.

É o lado abismal, podre, fedido,..

Onde me enforco com o próprio nó do umbigo —
preso à origem,
preso ao sentir,
preso a uma saudade que não se sabe de quê.

Ali, choro oceanos inteiros
sem plateia,
sem colo,
sem legenda.

Não é drama.
É profundidade transbordante, sem recipiente.
É corpo irradiante sem toque, sem carinho, abraço, beijo.
E pior, nesse exato momento do pus borbulhante vem "meu amor"
cheio de racionalizações, críticas, julgamentos ou ausências.

Passamos a vida inteira tentando descobrir
se alguém vai conseguir amar a versão inteira —
não só a parte bonita,
não só a parte inspiradora,
não só a parte poética que cabe no post.

Mas também a parte escura,
confusa,
contraditória,
a parte que desce demais,
que sente demais,
que às vezes desaparece.

O verdadeiro terror não é ser rejeitado.
É ser aceito apenas depois de editado.

Então, me digam, o maior desejo do Tipo 4, qual é?
não é ser visto —
é poder existir inteiro
sem precisar pedir desculpas
por sentir como sente.

E sabe qual é a parte trágica… e cômica?

Eu passei anos achando que me faltava algo.
Anos buscando fora
o que eu jurava que não estava em mim.

Até que um dia, exausto,
eu parei de correr atrás da minha identidade…
e ela sentou ao meu lado.

Era eu.
Inteiro. Esse que está agora aqui.
Sensível.
Imperfeito.
Vivo.

Eu percebo que não me falta nada.
O que me doía
era ter transformado minha diferença em condenação.

Hoje eu ainda sinto fundo.
Ainda choro fácil.
Ainda me emociono com uma música, um olhar, uma lembrança.
Mas agora sei:
isso não é fraqueza —
é linguagem da alma.

Eu não sou demais.
O mundo é que desaprendeu a sentir.

E se você que me escuta
carrega essa mesma saudade de não sei o que,
essa beleza que dói,
essa sensação de não caber…

(pausa longa)

Fica.
Não foge de ti.
Não negocie a tua profundidade, a tua diferença.

O que em você chamaram de excesso
talvez seja exatamente
o que um dia
vai encantar a alguém.

Eu sou Tipo 4.
E hoje…
eu não me diminuo mais para caber.

Eu faço do meu sentir
um território sagrado,
onde a vida — em milagres —
pode, finalmente,
se manifestar.


~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

2da Versão

Tipo 4 — Versão Dramática - Aquele que sente

(em primeira pessoa)

Eu sinto.
Logo, sofro.
E se não sofro… desconfio.

Sou intensidade em pessoa.
Onde há meia-luz, eu faço eclipse.
Onde há um problema simples, eu crio uma epopeia emocional.

Sou o trágico-romântico por vocação.
Oscilo nas emoções como quem respira —
não por escolha,
mas por natureza.

Sou diferente.
Muito diferente.
E faço questão de que você perceba isso.

Sinto diferente.
Visto diferente.
Ando diferente.
E se você não percebe,
fico ofendido.

Sou original, único, irrepetível —
um bicho humano raro, sensível demais para este mundo bruto.
Incompreendido, claro.
Sempre incompreendido.

Eu me busco nos outros.
Quando não me encontro, sofro.
Quando me encontro um pouco, sofro também —
porque não era exatamente assim que eu imaginava.

Sou cinestésico, intuitivo, médium das emoções alheias.
Sinto o clima da sala antes de alguém falar.
Capto o não dito, o mal resolvido, o olhar atravessado.
Sou meio artista, meio louco, meio xamã…
e cem por cento convicto de que ninguém sente como eu.

Posso me recolher.
Dramaticamente.
Com cortina, trilha sonora interna
e um leve vento existencial.

Fico melancólico com estilo.
Remoo o passado como quem revisita um clássico.
Projeto o futuro como uma tragédia belíssima.
E no meio disso tudo,
procuro o que me falta —
porque, sejamos honestos,
algo sempre falta.

Sou especialista em saudade do que nunca existiu.
Em nostalgia de vidas que não vivi.
Em sentir falta de mim mesmo.

Quero ser visto.
Mas exatamente como eu sou por dentro.
O que é complicado,
porque nem eu sei direito quem sou hoje.

Tenho pavor de ser comum.
Normal.
Previsível.
Isso, para mim, é quase morte simbólica.

Prefiro a dor com significado
ao conforto sem alma.

Mas… (pausa)

No fundo, eu sei.
Eu sei que minha intensidade não é defeito.
É instrumento.

Que minha dor não é identidade —
é passagem.

Que eu não vim ao mundo para sofrer bonito,
mas para traduzir o que muitos sentem
e não sabem dizer.

Sou Tipo 4.
Exagerado? Sim.
Dramático? Também.
Mas quando me reconheço,
minha sensibilidade deixa de ser ferida
e vira arte.

(olha para o vazio, suspira profundamente)

E mesmo agora…
provavelmente estou sentindo algo
mais do que o necessário.

----------------------------------------------


3ra Versão antiga

Monólogo: Aquele que Sente

(Tipo 4 – em primeira pessoa)

Sou o temperamental, o trágico-romântico, aquele que oscila nas emoções mesmo sem querer.
Sou diferente — sinto-me diferente, visto-me diferente, caminho fora do compasso comum.
Sou um tipo original, um bicho humano estranho, muitas vezes difícil de ser compreendido.
Procuro-me nos outros e não me encontro; volto para mim e confirmo: sou mesmo diferente.

Sou cinestésico, sensível aos climas e aos corpos, médium das emoções alheias, meio artista, meio louco, meio xamã — intérprete do invisível.

Posso me recolher. Posso ficar melancólico.
Dou-me conta de que estou remoendo o passado, encenando o futuro, buscando o que me falta.
Investigo incessantemente minha individualidade, minha originalidade, minha diferença —
numa tentativa contínua de responder à pergunta que me acompanha desde sempre:
quem sou eu, de verdade?

Eu fui uma criança que aprendeu cedo a sentir demais.
Não porque a vida fosse ruim —
mas porque tudo em mim acontecia em profundidade.

Desde pequeno percebi que algo faltava.
Não sabia dizer o quê,
mas sentia.
Sentia uma saudade sem nome,
uma melancolia suave,
um aperto no peito
como se o mundo tivesse esquecido de me entregar
alguma peça essencial.

Minha ferida nasceu quando acreditei
que havia algo fundamentalmente errado comigo,
que os outros pertenciam
e eu observava de fora.
Senti-me diferente, deslocado,
e transformei essa diferença em identidade.

Meu sentimento distorcido foi a inveja
não a inveja do que o outro tem,
mas do que o outro é.
A sensação de que o outro possui
uma inteireza,
uma naturalidade,
uma felicidade simples
que me escapa.

“Algo me falta.”
“Algo essencial foi perdido.”
“Se eu encontrar quem realmente sou,
então serei completo.”

Assim aprendi a buscar minha identidade
na intensidade das emoções.

Na infância, eu me refugiava no mundo interno.
Enquanto os outros brincavam,
eu sentia.
Enquanto falavam,
eu me comparava.
Enquanto viviam,
eu sonhava com uma vida mais verdadeira,
mais profunda,
mais bela.

Aprendi a reconhecer nuances,
tons sutis da alma,
contrastes invisíveis.
Minha sensibilidade virou linguagem.
Minha dor virou estética.

Sempre tive uma relação ambígua com o cotidiano.
O comum me entristece.
O banal me esvazia.
Busco o extraordinário,
o significativo,
o que carrega alma.

Na família, muitas vezes fui visto como intenso demais.
Sensível demais.
Dramático demais.
Amei profundamente,
mas nem sempre me senti compreendido.
Esperava ser visto por inteiro —
e sofria quando me sentia ignorado ou banalizado.

Eu gosto de profundidade emocional,
de conversas que atravessam,
de olhares que permanecem.
Gosto de arte, poesia, música,
de tudo que nomeia o indizível.
Gosto do que revela a beleza da dor
sem negá-la.

Eu quero autenticidade.
Quero ser fiel ao que sinto.
Quero viver com verdade emocional.

Eu sonho com um lugar onde eu possa existir
sem precisar me adaptar,
onde minha sensibilidade seja acolhida
e não corrigida.
Onde eu não precise competir
com a normalidade.

No amor, sou intenso, romântico e profundo.
Quando amo, entrego-me por inteiro.
Mas também idealizo,
projeto,
fantasio.
Posso amar mais a imagem do amor
do que a pessoa real.

Tenho medo de ser abandonado
e, ao mesmo tempo,
medo de ser comum demais.
Oscilo entre querer fusão
e precisar de distância
para preservar minha identidade.

Com os amigos, busco conexão verdadeira.
Prefiro poucos vínculos,
mas intensos.
Quero sentir que sou especial,
único,
insubstituível.
E sofro quando me sinto apenas mais um.

Minhas emoções são meu território sagrado —
e também minha armadilha.
Posso me afogar nelas.
Posso me definir pela falta,
pela dor,
pela nostalgia.

Meus medos são claros:
medo de não ter identidade,
de não ser amado como sou,
de que minha vida seja insignificante.
Medo de que a beleza que busco
nunca se revele.

Mas também carrego dons preciosos.
Tenho sensibilidade refinada.
Vejo beleza onde outros passam apressados.
Dou forma ao invisível.
Sou ponte entre emoção e expressão.
Minha presença convida à verdade.

Sou capaz de transformar dor em arte,
confusão em significado,
emoção em linguagem compartilhável.

A cura começou quando percebi
que não havia nada faltando em mim.
Que a ausência que eu sentia
não era um defeito,
mas um espaço de presença.

Curei-me quando deixei de buscar minha identidade
na dor
e comecei a encontrá-la na vivência simples do agora.
Quando percebi que a intensidade não precisa de sofrimento
para ser real.

Aprendi que posso sentir profundamente
sem me perder.
Que posso apreciar a beleza
sem rejeitar o ordinário.
Que pertenço
mesmo quando sou diferente.

Hoje, mais integrado,
reconheço todos os tipos em mim:

O Tipo 1, quando busco coerência estética e ética.
O Tipo 2, quando ofereço empatia verdadeira.
O Tipo 3, quando dou forma concreta à minha expressão.
O Tipo 5, quando observo e compreendo meus processos.
O Tipo 6, quando sinto medo e sigo mesmo assim.
O Tipo 7, quando me permito leveza e prazer.
O Tipo 8, quando afirmo meus limites.
E o Tipo 9, quando descanso em mim mesmo.

Sou Tipo 4 —

Sou aquele que sente
para lembrar ao mundo
que a alma existe,
que a beleza é necessária
e que a verdade emocional
é uma forma de amor.

(silêncio)

----------------------------------------------------------


Nenhum comentário:

Postar um comentário