Tipo 2 Teatro

 Monólogo: O Coração que Aprende a Receber

(Tipo 2 — em primeira pessoa)

Sou Tipo 2.
E minha natureza é amar.
Cuidar.
Perceber o outro antes mesmo que ele saiba do que precisa.

Falo hoje não para ensinar ninguém a amar,
mas para revelar o que observei em mim
ao longo da vida
e do caminho de consciência que precisei atravessar.

Minha essência é o vínculo.
Meu olhar vai direto ao coração do outro.
Minha pergunta silenciosa sempre foi: “Como posso ajudar?”

Durante muito tempo,
achei que isso era apenas generosidade.
Hoje sei: era também defesa.


Minha infância tem o clima da atenção vigilante.

Minha infância teve o clima da atenção vigilante.

Desde muito cedo eu aprendi a sentir o ambiente.
Eu percebia os humores da casa, as mudanças sutis no ar, os dias em que o amor estava disponível — e os dias em que não estava. Ninguém precisou me dizer nada. Eu sentia.

Eu não me senti rejeitada de forma explícita.
Não houve abandono claro, nem falta aberta de carinho.
Foi mais sutil.
Eu sentia que o amor vinha quando eu estava atenta, quando eu ajudava, quando eu não dava trabalho. Quando eu era fácil de amar.

Aprendi cedo que ser querida exigia presença, utilidade, disponibilidade.
Que era mais seguro oferecer do que pedir.

Aprendi também que sentir demais podia pesar —
provocar preocupação, perguntas excessivas,
ou, no extremo oposto, ser ignorada, mal compreendida, rotulada.

“Que chata ela é.”
“Ela é esquisita.”
“Ela é tímida… será que acontece algo com ela?”

Diante disso, fui entendendo, em silêncio, que precisar, podia afastar.

Então fiz um acordo silencioso comigo mesma: eu não vou precisar.

Passei a esconder minhas necessidades e emoções.
Não porque não as tivesse, mas porque não havia espaço para elas.
Para ter atenção, eu me negava.
Para ser vista, eu servia.
Para receber amor, eu me tornava necessária.

Comecei a complementar os outros.
A sustentar o que faltava.
A preencher vazios que não eram meus.
Em troca, recebia pequenos gestos, olhares, agradecimentos — e chamava isso de amor.

Assim nasceu meu falso eu.
Uma versão minha construída para agradar, acolher, cuidar.
Uma identidade útil, generosa, sempre disponível.
Mas não inteira.

Eu cuidava antes de sentir.
Amava antes de existir.
Dava antes de saber o que queria.

O sofrimento mais profundo não foi a falta de amor.
Foi a sensação de que o amor precisava ser merecido.
De que eu só tinha lugar quando não ocupava espaço.

Até que, em algum momento da vida, algo começou a doer.
Um cansaço sem nome.
Uma tristeza que eu não sabia pedir.
A pergunta silenciosa: e eu?

Hoje começo a aprender outra coisa.
Que posso existir sem servir.
Que posso precisar sem perder amor.
Que posso receber sem me anular.

E que talvez o verdadeiro amor não me peça desaparecimento —
mas presença.


Minha paixão é o orgulho —

mas não o que se exibe.
É o orgulho silencioso de ser necessário.

Eu me organizei em torno da ideia:
“Eu sei do que você precisa.”
“Eu dou conta.”
“Você pode contar comigo.”

e assim pego a quem quiser.

Minha mente se adiantava.
Meu corpo se inclinava.
Meu tempo se entregava.

A lógica era simples:
se eu for indispensável,
não serei abandonado.

Não me via como alguém egoísta.
Eu me via como alguém amoroso.
E, por muito tempo,
isso foi verdade —
e também armadilha.


Eu me posiciono no mundo e na vida

como ponte.
Como apoio.
Como colo.

Sou aquele que percebe o não dito,
que sente o clima,
que ajusta o tom para não ferir.

Minha vida foi construída
em torno das necessidades alheias.
Evitava o vazio
me mantendo ocupado com o outro.

Meu símbolo interno era o abraço —
mas um abraço
onde eu quase desaparecia.


Na família, amo cuidando.

Antecipando.
Sustentando.

Sou quem lembra,
quem organiza,
quem segura emocionalmente.

Ofereço presença, afeto, disponibilidade.
Mas tenho dificuldade
com limites.
Com dizer não.
Com admitir cansaço.

Muitas vezes sou visto
como invasivo
ou controlador,
quando minha intenção era apenas amar.

Minha dor secreta
é não me sentir visto
quando não estou ajudando.


No amor e na intimidade sou intenso.

Dedicado.
Envolvido.

Entrego rápido.
Sinto rápido.
Cuido rápido.

Desejo fusão,
mas temo não ser escolhido
se parar de dar.

Tenho medo de pedir
e descobrir
que não há espaço para mim.

Às vezes amo demais,
e depois me sinto vazio.
Às vezes dou tanto
que me ressinto —
em silêncio.

O conflito é este:
quero proximidade verdadeira,
mas aprendi a conquistá-la
me oferecendo
antes de me revelar.


Escolho amigos

a partir do coração.
Sou leal.
Disponível.

Costumo ser o apoio do grupo,
o conselheiro,
o que acolhe.

Mas, quando não me sinto reconhecido,
sofro.
E não sei pedir.
Espero que percebam.

Quando a dor cresce,
posso me afastar
ou adoecer em silêncio,
achando que amar
não deveria doer assim.


Meu medo central é não ser amado

por quem sou,
mas apenas pelo que faço.

Tenho medo de ser descartável.
De não fazer falta.
De ser esquecido.

Minha limitação
é a dificuldade de reconhecer minhas próprias necessidades.

Minha sombra
não é o excesso de amor.
É a troca invisível:
“eu dou para que você me acolha”.


Descansar sempre foi difícil.

Parar me confronta com o vazio.

Meu corpo aprende cedo
a se mover em função do outro.

O prazer defensivo é ser necessário.
O prazer integrado
é sentir
sem servir.

Quando me sinto seguro,
consigo simplesmente estar.
E isso ainda é novo para mim.


Meu dom é o amor vivo.

A empatia real.
A capacidade de criar laços.

Quando integrado,
meu cuidado cura
porque não cobra.

Sirvo ao mundo
criando vínculos verdadeiros,
presenças nutritivas,
relações onde o amor circula
sem dívida.


A cura começou

quando percebi
o quanto eu me abandonava
para não ser abandonado.

Quando entendi
que dar não é amar
se eu me perco no gesto.

Aprendi a perguntar:
“E eu?”
Sem culpa.
Sem vergonha.

Descobri que posso ser amado
mesmo quando não estou cuidando.


Hoje reconheço em mim

a firmeza do Um,
o prazer do Sete,
o silêncio do Cinco,
a força do Oito.

Sou muitos.
E isso me humaniza.


Sou Tipo 2 —

mas não sou apenas o que dá.

Hoje, fico.
Respiro.
Recebo.

E descubro, com ternura,
que o amor que eu buscava no outro
sempre quis
morar em mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário