Tipo 8 teatro

Hector Othon

Monólogo: O Guardião do Limite

(em primeira pessoa — Tipo 8)

Sou Tipo 8.
E não falo isso como rótulo.
Falo como quem reconhece a própria ossatura interna.
Vou compartilhar o que vi em mim ao longo da vida —
não para me explicar,
mas para me revelar.

Sou o guerreiro, o protetor do território

Chego ao mundo com força vital intensa.
Há em mim um fogo que não aceita submissão,
uma energia que sente a vida como campo de batalha e defesa.

Enquanto outros perguntam “serei amado?”,
eu pergunta:

“Quem está no controle?”


Este meu foco desde criança. Lembro do mundo como um lugar onde alguém sempre podia atravessar a porta sem pedir licença.

O ar não era leve.
Era denso.
Havia força demais, ou ausência demais —
e em ambos os casos, eu precisava me manter firme.

Muito cedo, entendi algo sem palavras:
"se eu não me protegesse, ninguém protegeria."

A criança que fui não chorou muito.
Ela endureceu.
Aprendeu a sustentar o olhar.
Aprendeu a ocupar espaço.

Minha ferida foi a invasão.
O sentimento de que meus limites não seriam respeitados
— meu corpo, minha vontade, minha verdade.

Então decidi, ainda pequeno:
ninguém mais me quebra.


Chamam a minha paixão de raiva.
Eu chamo de fogo vital.

A paixão que me moveu foi a intensidade —
essa energia crua que me manteve de pé
quando seria mais fácil cair.

Dentro de mim, uma frase antiga ecoava:
“Se eu não for forte, serei dominado.”

E assim, organizei minha vida como um território.
Defesas claras.
Fronteiras visíveis.
Pouca paciência para jogos indiretos.

Não foi crueldade.
Foi sobrevivência inteligente.


Minha Relação com o Mundo e com a Vida é intenso.

Eu não observo a vida de longe.
Eu entro nela.

Avanço.
Testo.
Provoco.

Prefiro o confronto honesto
à cordialidade vazia.

Meu ritmo é direto.
Meu sim é inteiro.
Meu não é inegociável.

Vivo como quem constrói uma fortaleza
não para atacar,
mas para garantir que ninguém ultrapasse o portão sem verdade.


Na família, amo protegendo.
Sustentando em silêncio.
Segurando a estrutura quando tudo ameaça ruir.

Ofereço presença, força e lealdade em atos,
não anuncio afetos,
não prometo o que não posso cumprir.

Cuido fazendo.
E isso, nem sempre, é entendido.

Tenho dificuldade com delicadezas miúdas,
com pedidos que chegam frágeis demais
ou disfarçados de expectativa.

Muitas vezes me veem como duro.
Outros projetam em mim
supostas segundas intenções, jogos de poder, ameaça.

Quando, na verdade, estou apenas atento.
Vigiando o campo.
Garantindo que ninguém ultrapasse limites
ou se machuque sem amparo.

Minha intenção é cuidado.
Mas o meu impacto, às vezes, é medo.

E aprender a sustentar essa diferença
sem fechar o coração
tem sido parte essencial do meu caminho.


No amor, sou intenso — ou não sou.
Não sei amar pela metade.

Quando amo, entrego tudo.
Corpo, tempo, proteção, presença.
Mas atenção, só depois de sentir, no osso,
que não serei traído no essencial.

Não sou daqueles que se deixa conquistar por aparências. Antes de avançar, estudo o terreno e a situação.

Se sou traído, não faço cena.
Eu fecho.
Retiro a energia.
Corto o vínculo por dentro
antes mesmo que o outro perceba.

A confiança quebrada, para mim,
não dói apenas — desorganiza o mundo.
Porque amar, para mim, é baixar a guarda.
E baixar a guarda é um risco sagrado.

Quando sou invadido, controlado ou testado,
meu corpo reage antes da palavra.
Endureço.
Retomo meus espaços.
Levanto muralhas onde antes havia passagem.

Não é vingança.
É instinto.
É o animal ferido garantindo território.

O que mais temo na intimidade
não é perder o outro.
É perder o controle de mim.

Preciso sentir que posso relaxar
sem ser usado, enfraquecido ou dominado.
Preciso saber que o amor não vem
com algemas invisíveis.

E sim —
é possível que eu me torne dependente.
E isso me apavora.

Quando percebo que preciso demais,
que meu centro começou a girar ao redor do outro,
algo em mim entra em estado de alerta máximo.

A dependência, para mim,
soa como ameaça à sobrevivência.
Como se amar fosse entregar a própria força
nas mãos de alguém.

Por isso, desejo proximidade
com a mesma intensidade
com que luto contra ela.

Quero fusão —
mas sem submissão.

Quero vínculo —
mas sem perder a soberania sobre mim.

E aprender que posso amar profundamente
sem desaparecer,
sem dominar,
sem fugir
tem sido uma das batalhas mais silenciosas
e mais verdadeiras da minha vida.


Escolho poucos como amigos ou parceiros.
Mas quando escolho, escolho para valer.

Não me interesso por presenças decorativas
nem por vínculos mornos.
Aproximo quem reconhece minha força
sem tentar domesticá-la,
quem respeita meus limites
sem precisar testá-los.

Meus amigos são aqueles
que veem meus dons,
minhas capacidades,
e não se assustam com minha intensidade.
Gente que aguenta a verdade
sem me pedir para diminuir.

Valorizo lealdade acima de afinidade.
Prefiro quem fica
a quem agrada.

Quem permanece quando o clima pesa,
quem sustenta o vínculo sem jogos,
ganha um lugar definitivo no meu território.

Em grupos, assumo a liderança naturalmente.
Não por vaidade.
Mas porque percebo rápido
onde está o risco,
o que precisa ser feito,
quem precisa ser protegido
e quando é hora de agir.

Alguns chamam isso de controle.
Eu chamo de responsabilidade instintiva.

Quebras de confiança me atingem fundo.
Não discuto demais.
Não faço escândalo.
Não exponho.

Eu me afasto.
Em silêncio.

E quando saio,
raramente volto ao mesmo lugar.

Porque, para mim,
confiança não se negocia —
se honra.


Meu medo central é a impotência.
Ser controlado.
Ser diminuído.
Ser forçado a engolir o que fere a minha verdade.

Durante muito tempo, confundi força com domínio.
Acreditei que ser dono de mim
era nunca depender,
nunca ceder,
nunca baixar a guarda.

Minha limitação foi acreditar
que sentir é fraqueza
e que abrir o peito é perigo.

No início, foi ilusão.
Achei que era livre porque ninguém me mandava.
Troquei o medo antigo de ser ferido
pela vigilância constante sobre mim mesmo.
Eu me sentia soberano,
sem perceber que me governava pelo medo.

Depois veio o excesso.
Passei a me exigir mais do que qualquer inimigo exigiria.
Controlei o corpo, o tempo, os desejos, as emoções.
Chamei de disciplina o que já era violência comigo mesmo.
Chamei de autonomia o cansaço que eu mesmo produzia.

Eu era forte,
mas nunca descansava na própria força.

Quando me sinto traído, fecho o campo.
Não faço escândalo.
Não negocio minha dignidade.
Corto com precisão.

Aprendi a sair sem gritar,
porque para mim, lealdade não se renegocia.

Quando me sinto invadido ou controlado,
me torno fronteira.
Duro.
Definitivo.

Meu corpo reage antes da palavra.
É instinto antigo,
memória de sobrevivência.

Mas existe um medo ainda mais fundo:
o de me tornar dependente.

Quando percebo que preciso demais,
que me apoiei demais,
que entreguei poder demais ao outro,
meu sistema inteiro entra em alerta.

É aí que posso dominar, testar, endurecer
ou desaparecer.
Não por falta de amor,
mas por memória da ferida.

Minha sombra não é o excesso de força.
É a dificuldade de descansar nela.

O caminho de cura começou
quando meu próprio corpo pediu rendição.
Quando compreendi
que controlar tudo
era apenas outra forma de ser controlado.

Foi ali que algo mudou:
descobri que a verdadeira força
não está em nunca precisar,
mas em poder precisar
sem me perder de mim.

Hoje, ser forte não significa estar armado.
Significa sustentar a presença
sem esmagar o sentir.

Não preciso mais vigiar tudo
para existir inteiro.

Não sou dono de mim.
Sou guardião da minha força.

E, pela primeira vez,
posso repousar nela.


O prazer defensivo foi a adrenalina,

o excesso,
o ir sempre além.

Quando me sinto seguro,
descubro outro prazer:
o silêncio que não ameaça,
o corpo que pode repousar
sem perder dignidade.

Aprendo, ainda hoje,
que suavidade não me destrói.


Meu dom é proteger a vida.

Dar estrutura quando tudo treme.
Sustentar decisões difíceis.

Minha virtude é a inocência recuperada
agir com verdade,
sem manipulação.

Na profissão, no serviço, na criação,
sou aquele que abre caminho,
que enfrenta o que ninguém quer olhar.

Não nasci forte.
Tornei-me.


A cura começou quando percebi

que minha força já não precisava provar nada.

Reconheci o medo por trás da armadura.
Chorei onde antes só havia tensão.

Aprendi a pedir ajuda
sem perder meu eixo.

Descobri que vulnerabilidade
não é rendição —
é escolha consciente.


Vejo em mim os Nove Tipos

Hoje reconheço em mim
o silêncio do Observador,
a alegria do Entusiasta,
a sensibilidade do Romântico,
a ética do Reformador,
a lealdade do Guardião,
a diplomacia do Pacificador,
o cuidado do Prestativo
e a presença do Realizador.

Sou mais inteiro porque sou múltiplo.


Sou Tipo 8 —

mas não sou apenas um tipo.

Sou força que aprendeu a escutar.
Sou limite que virou abrigo.
Sou poder a serviço da vida.

E agora,
posso baixar a espada
sem deixar o coração desprotegido.

(silêncio)

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