Tipo 3 Teatro

 Monólogo: O Brilho que Aprende a Parar

(Tipo 3 — Teatro | em primeira pessoa)

Sou Tipo 3.
E minha natureza é realizar.
Mover.
Fazer acontecer.

Falo hoje não para impressionar,
nem para provar valor,
mas para revelar o que observei em mim
ao longo da vida
e do caminho de consciência que precisei atravessar.

Minha essência é a potência em ação.
Eu enxergo metas onde outros veem obstáculos.
Meu corpo sabe avançar.
Minha mente sabe vencer.

Durante muito tempo,
achei que isso era apenas talento.
Hoje sei:
era também defesa.


Minha infância tinha o ritmo da expectativa.
Nada era plenamente espontâneo.
Havia sempre um olhar à espera de algo,
um termômetro invisível medindo valor.

Meus olhos estavam atentos o tempo todo.
Eu observava gestos, silêncios, expressões.
Aprendi cedo a avaliar o ambiente
como quem precisa acertar para continuar existindo.

Percebi rapidamente o que era valorizado.
O que rendia aplauso.
O que despertava orgulho.
O que fazia os outros sorrirem para mim.

Quando eu acertava, eu era visto.
Havia luz, atenção, reconhecimento.
Quando falhava, algo se fechava.
Às vezes vinha a correção fria,
ou o castigo disfarçado de ensino.
Outras vezes, pior ainda: o vazio.
A ausência do olhar.

Minha ferida não foi a rejeição direta.
Foi mais silenciosa e mais profunda.
Foi sentir que o amor chegava depois do desempenho.
Que eu precisava fazer algo certo
para merecer permanecer.

Então comecei a trocar sentimento por resultado.
Entregava eficiência antes de entregar verdade.
Mostrava competência antes de mostrar fragilidade.
Aprendi a controlar a imagem
porque não sabia se o coração seria bem-vindo.

Houve muitas vezes em que eu fiz rir
quando o que eu queria era chorar e desaparecer.
Talvez por isso os palhaços me comovam tanto:
eles também transformam dor em espetáculo
para não perder o amor do público.

Eu me tornei aquilo que esperavam de mim.
Adaptei gestos, tons, posturas.
Vesti máscaras de sucesso, leveza, força.

Mas a minha dor…
a minha dor ficava guardada num lugar secreto.
Um lugar onde só eu entrava.
Escondida com cuidado,
para que ninguém percebesse
que por trás do brilho havia um coração cansado
pedindo permissão para simplesmente ser.


Minha paixão é a vaidade —

mas não a superficial.
É a identificação profunda
com a imagem de sucesso.

Eu me organizei em torno da ideia:
“Se eu vencer, serei amado.”
“Se eu parar, desapareço.”
“Se eu falhar, perco valor.”

Minha energia se acelerou.
Meu coração se adaptou.
Meu rosto aprendeu a sorrir
mesmo quando algo dentro
já estava cansado.

A lógica era simples:
ser admirável
para não ser descartável.


Eu me posiciono no mundo e na vida

como protagonista.
Como motor.
Como referência.

Gosto de eficiência,
clareza,
resultado.

Evito lentidão,
indefinição,
fracasso.

Minha vida virou palco.
Meu corpo, ferramenta.
Meu tempo, investimento.

O símbolo interno era o troféu —
mas atrás dele
havia um cansaço
que eu não sabia nomear.


Na família, eu amo mantendo o astral em alta.
Amo provendo, resolvendo, fazendo acontecer.
Amo sendo exemplo de força, de movimento, de sucesso.
Sou aquele que sustenta pelo gesto, pela atitude, pela ação contínua.

Sou o que dá orgulho.
O que entrega resultados.
O que levanta a vida quando ela ameaça cair.

Mas há um ponto onde eu travo.
Tenho dificuldade com a vulnerabilidade.
Com pedir ajuda.
Com admitir limites sem sentir que falhei.

Quando a carência aparece, eu me retiro.
Prefiro o silêncio a expor o que não sei como mostrar.
Preciso de um canto protegido, onde possa baixar a guarda
e sentir sem desempenho.
Lá, quase sempre, sou só eu — ou pouquíssimos que conseguem atravessar essa muralha.

Muitas vezes me veem como distante,
ocupado demais,
absorvido pelo trabalho.
Mas, por dentro, estou apenas tentando não falhar.
Tentando manter tudo em pé.

Fico pouco tempo com meus familiares.
E quando estou junto, faço coisas, organizo, resolvo.
Fujo do olho no olho,
da conversa sem função,
do silêncio que poderia revelar o que eu não sei pedir.

Minha intenção é proteger.
O meu impacto, às vezes, é ausência.


No amor, na intimidade, eu sou intenso.
Encantador.
Presente — quando estou ali de verdade.

Mas preciso confessar: namorar, para mim, é profundamente desafiador.
Eu não relaxo.
Sinto que preciso dançar o tempo todo, sustentar o clima, chamar a atenção, agradar, fazer rir, levantar o astral.
Como se o amor exigisse espetáculo contínuo.

E assim, querendo tanto, alcanço pouco.
Muitas vezes, mais do que agradar, sinto que decepciono —
não por falta de entrega,
mas por excesso de esforço.
E mesmo assim, não tenho coragem de perguntar.
Tenho medo da resposta.
Ou do silêncio.

Temo ser visto
sem performance.
Sem brilho.
Sem conquista.

É verdade: eu desejo ser amado pelo que sou.
Mas também carrego um medo silencioso —
o de não saber quem sou
quando não estou fazendo, animando, resolvendo, sustentando.

Às vezes me adapto demais.
Me moldo.
Me ajusto ao ritmo, ao desejo, à expectativa do outro.
Vou me afinando, me diminuindo aqui, me expandindo ali,
até caber.

E mesmo assim, sempre falta algo.
Para mim.
E para quem está comigo.

No fim, aceitamos.
Levamos a intimidade como dá,
do jeito que acontece.
O que nos mantém unidos é a capacidade de ir levando a vida,
com criatividade, humor
e resolvendo os desafios do cotidiano em alto astral.

Funciona.
Mas não preenche.

E quando fico sozinho,
vem aquela tristeza mansa, profunda —
uma saudade de mim.

Sinto o vazio
como quem venceu mais uma meta
e, no caminho,
se perdeu de si mesmo.


Escolho amizades

que caminham rápido.
Que crescem.
Que realizam.

Em grupos, assumo liderança natural.
Inspiro.
Mobilizo.

Mas quando não sou reconhecido,
me fecho.
Acelero.
Sigo sozinho.

Tenho dificuldade
com relações que não rendem resultado.
E sofro em silêncio
quando percebo
que confundi valor
com utilidade.


Meu medo central é não valer nada
quando não estou produzindo.

Tenho medo de parar
e encontrar um vazio
que não sei sustentar.

Minha limitação
é confundir identidade com desempenho.

Minha sombra
não é a ambição.
É o esquecimento de mim mesmo
no caminho do sucesso.


Meu prazer é levantar o astral,
fazer sorrir,
vencer,
atuar.

Sim.

O Tipo 3 é, muitas vezes, o ator —
não no sentido falso,
mas no sentido vital:
aquele que sente prazer em encarnar uma versão de si que funciona,
que brilha,
que sustenta o campo ao redor.

O meu prazer é mexer com a energia.
Do público.
Das pessoas que me observam.

Ver nos olhos delas o convite silencioso:
é bom entrar na tua história.
É bom se envolver com o que fazes,
com o que dizes,
com a forma como conduzes.

Fazer sorrir.
Fazer dar certo.
Vencer.

Há em mim uma alegria quase elétrica quando percebo que a cena flui,
que o ambiente responde,
que o ritmo se ajusta
e as pessoas se animam porque eu estou ali.

É como se eu dissesse ao mundo, com o corpo inteiro:
“confia em mim —
eu sei conduzir.”

Descansar sempre me pareceu improdutivo demais.
Silenciar, perigoso demais.

No silêncio, algo em mim fica sem papel.
Sem função.
Sem aplauso interno.
E isso assusta.

Meu corpo aprendeu a funcionar mesmo cansado.
Mesmo no limite.
Mesmo quando o coração pede pausa.

Eu sigo.
E sigo bem.

E quando sinto que faço bem as coisas,
que atuo bem,
que desempenho com excelência,
isso me dá prazer.

Um prazer real.
Concreto.
Quase físico.

É ali que me sinto vivo.
Visto.
Valioso.

Mesmo no limite.

Esse é o prazer defensivo do Tipo 3:
vencer.
Superar.
Chegar lá.
Receber o aplauso —
ainda que silencioso,
ainda que só meu.

Mas existe outro prazer.

Mais sutil.
Mais raro.
Mais verdadeiro.

O prazer integrado.

E o que é o prazer integrado?

É existir
sem meta.

É quando não preciso provar nada.
Quando não estou sendo medido.
Quando posso simplesmente estar.
Respirar.
Sentir.
Falhar um pouco.

Fora de cena.

(Como se fosse possível estar fora de cena…
jajajaja.)

Porque, mesmo quando estou sozinho,
eu atuo.
Para mim.

Quem sou eu?
Sou as minhas circunstâncias.
Sou o movimento que responde.
Sou o personagem que nasce do momento.

Sou um desfile de personagens.

E talvez a minha cura
não seja parar de atuar,
mas não precisar mais me esconder atrás da atuação.

Simplesmente ser.
E aceitar.
E acolher o que sou.

Fluxo puro de vida,
em sintonia fina com o que está próximo.

Mistério da adoração.
Magia da manifestação.

E, quem sabe,
pela primeira vez,
existir
sem precisar vencer
para merecer estar aqui.


Meu dom é a realização consciente.

A capacidade de transformar visão em forma.
Ideia em movimento.

Quando integrado,
meu fazer inspira
sem pressionar.

Sirvo ao mundo
criando caminhos possíveis,
mostrando que é possível avançar
sem se perder de si.


A virada da cura aconteceu
quando percebi
que a minha corrida
não estava me levando a paz.

Eu avançava.
Conquistava.
Cumpria metas.

Mas passava por mim
como quem atravessa a própria casa
sem entrar em nenhum cômodo.

Então compreendi algo simples e profundo:
sucesso sem presença
é apenas uma fuga elegante.

Uma forma socialmente aceita
de não estar. 
Entendi a diferença entre interpretar um papel
e ser o papel, incorporado do papel, atuar

Foi aí que comecei a aprender
— com tropeços e pausas —
a desacelerar
sem me anular.

A sentir
sem performar.

A permanecer
sem precisar falsear.

Descobri, com surpresa e alívio,
que posso ser amado
mesmo quando não estou brilhando.
Mesmo quando não estou sustentando o campo.
Mesmo quando não estou vencendo nada.

Mas simplesmente, quando estou presente tudo observando, e interatuando.

E foi nesse chão mais simples
que a cura iluminou.

Hoje, eu consigo performar
sem me perder.

Atuar
e ser.

Brilhar
sem desaparecer por dentro.

Aceitar-me
sem me fixar.

Surpreender-me
com aquilo que me torno
quando não tento definir.

Viver não como meta,
mas como experiência.

Sentir.
Desfrutar.

E perceber, com ternura,
que o verdadeiro sucesso
é estar presente
na vida em milagres.


Sou os nove tipos

Hoje reconheço em mim
a profundidade do Quatro,
o silêncio do Cinco,
a firmeza do Oito,
a ética do Um.

Sou muitos.
E isso me devolve humanidade.


Sou Tipo 3 —

mas não sou apenas o que conquisto.

Hoje, descanso no que sou.
Ajo sem me vender.
Brilho sem me perder.

E descubro, enfim,
que o palco mais verdadeiro
é aquele
onde posso tirar a máscara
e ainda assim
permanecer ator.

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