Monólogo: O Guardião do Justo
(em primeira pessoa — Tipo 1)
Sou Tipo 1.
E hoje falo não para condenar ninguém,
nem para absolver a mim mesmo,
mas para revelar o que observei em mim
ao longo da vida
e do caminho de consciência que precisei trilhar.
Sou o juiz interior.
O guardião da ética, da medida, do correto.
Minha contribuição ao mundo sempre foi esta:
apontar o desvio,
corrigir o erro,
tentar aliviar a culpa coletiva
fazendo tudo “do jeito certo”.
Minha voz sempre veio com um tom de ajuste.
Meu corpo, com uma postura de retidão.
Meu olhar, com a pergunta silenciosa:
“Está certo assim?”
Durante muito tempo,
achei que isso era apenas caráter.
Virtude.
Responsabilidade.
Hoje sei:
era também defesa.
de responsabilidade.
Como se algo estivesse sempre fora do lugar
e alguém precisasse consertar.
Eu era criança,
mas já sentia que não podia errar.
Que o amor vinha condicionado
a fazer o certo,
a me comportar,
a não incomodar.
A ferida foi clara, embora silenciosa:
não sou bom o bastante como sou.
Preciso melhorar para merecer.
Foi ali que nasceu a defesa:
vigiar-me.
Corrigir-me.
Endurecer-me por dentro
antes que o mundo o fizesse.
Minha paixão é a raiva —
mas não aquela que explode.
É a raiva engolida cedo demais.
A raiva que aprendeu a se portar bem.
A raiva educada, moralizada,
transformada em tensão permanente.
Quando criança,
aprendi que errar custava caro.
Não necessariamente castigo —
mas desapontamento.
Silêncio.
Um olhar que dizia:
“Você podia ter feito melhor.”
Então me tornei vigilante.
De mim mesmo, primeiro.
Corrigia o gesto antes de completá-lo.
Revisava a palavra antes de dizê-la.
Endireitava o corpo
como quem pede desculpa por existir.
Essa raiva não gritava.
Ela organizava.
Organizou minha vida inteira.
Meus pensamentos em fila.
Minhas escolhas sob controle.
Meu corpo sempre tenso,
como se relaxar fosse falhar.
Dentro de mim,
a frase nunca cessava:
“Poderia ter sido melhor.”
“Nada está suficientemente certo.”
“Descansa depois — quando merecer.”
Eu não me julgava mau.
Isso seria fácil demais.
Eu me julgava insuficiente.
E achava — tragicamente —
que essa exigência constante
era virtude.
Que a dor me tornava bom.
Que a rigidez me tornava digno.
como um fiscal interno permanente.
Um ajuste fino constante.
Vejo falhas onde outros veem processo.
Vejo desvios onde outros veem experimentação.
Meu símbolo sempre foi a torre:
reta, firme, correta —
mas solitária.
Tenho ritmo próprio,
disciplina,
exigência.
E dificuldade com o improviso,
com o erro,
com o “depois a gente vê”.
Na família, eu amo corrigindo.
Organizando.
Sendo exemplo vivo do que considero justo.
Para mim, não é detalhe.
É quase um choque físico
ver alguém beber água
e deixar o copo sujo fora do lugar.
Na minha cabeça, a pergunta surge automática, quase dolorosa:
Como a pessoa não percebe
que, se ela não faz, alguém terá que fazer?
E esse “alguém” costuma ser invisível.
Ou sempre o mesmo.
Ou eu.
Quando alguém entra em casa
com os sapatos sujos de terra,
espalha aquilo pelo chão
como se o chão não fosse de ninguém,
algo aperta no peito.
E quando a pessoa ainda tira a camisa suada,
com cheiro forte,
e a joga sobre a cadeira da mesa —
o lugar onde se come,
onde se partilha —
não é só nojo.
É invasão.
É desrespeito.
É como se algo sagrado tivesse sido violado.
Eu reconheço:
essas coisas me perturbam profundamente.
Mas quase nunca falo na hora.
Fico por dentro,
orquestrando discursos inteiros.
Escolhendo palavras mais justas.
Imaginando o tom correto.
Tentando não ser duro demais.
Tentando não ser injusto.
Enquanto isso, o corpo endurece.
A mandíbula fecha.
O estômago contrai.
O outro segue vivendo.
E eu sigo organizando o mundo por dentro,
carregando a responsabilidade
que ninguém me pediu,
mas que eu sinto ser minha.
Eu ofereço estrutura.
Ética.
Confiabilidade.
Sou aquele em quem se pode confiar
quando algo precisa funcionar,
quando alguém precisa sustentar,
quando o caos ameaça.
Mas tenho dificuldade com indulgência.
Com falhas que se repetem.
Com emoções que transbordam sem forma,
sem critério,
sem contenção.
Quando me veem rígido,
crítico,
difícil de agradar,
uma parte de mim sofre em silêncio.
Porque minha intenção é cuidado.
É preservar o espaço comum.
É proteger a dignidade do convívio.
Mas o impacto, muitas vezes,
é cobrança.
E entre a vontade de cuidar
e o medo de relaxar,
eu fico ali —
tenso, atento,
tentando amar
sem deixar nada fora do lugar.
No amor, sou comprometido.
Leal.
Responsável.
Faço questão de cumprir.
De estar presente.
De não falhar.
Mas basta algo sair do lugar —
um tom diferente na voz do outro,
uma frase mal interpretada,
um silêncio mais longo que o habitual —
e algo dentro de mim começa a tremer.
Não é ciúme comum.
É descontrole moral.
A mente dispara:
Fui inadequado.
Disse algo errado.
Fui excessivo.
Não estive à altura.
Começo a revisar cada gesto,
cada palavra,
como um juiz enlouquecido reabrindo o próprio processo.
O coração acelera,
o corpo esquenta,
a respiração encurta.
Quero proximidade,
mas o medo de errar se torna maior que o desejo de ficar.
Então faço coisas estranhas.
Falo demais —
explico, justifico, racionalizo sentimentos
que pediam apenas silêncio e presença.
Ou falo bobagens,
frases fora de tom,
tentativas desajeitadas de aliviar a tensão
que só a tornam mais visível.
Às vezes me torno excessivamente correto,
quase formal,
como se vestir uma armadura ética
pudesse conter o caos emocional.
Outras vezes,
quero desaparecer.
Tenho vontade de sumir por alguns dias,
não atender mensagens,
não ser visto,
não ser sentido.
Não porque não ame —
mas porque amar me tira o controle.
Fico paranoico:
interpreto olhares,
releio mensagens,
imagino julgamentos que talvez nem existam.
E o mais doloroso:
começo a duvidar do amor que recebo.
Penso que o outro ainda não viu tudo.
Que, se visse,
talvez recuasse.
Tenho medo de perder o eixo.
De falhar.
De não ser digno.
Desejo intimidade,
mas temo mostrar minhas imperfeições.
Quero ser amado,
mas acredito — lá no fundo —
que preciso merecer o amor
antes de simplesmente recebê-lo.
E nesse conflito,
entre entrega e vigilância,
eu sofro calado,
tentando ser correto
num território onde o amor
não pede correção,
apenas verdade.
Poucos mesmo.
Não por frieza —
mas porque levo vínculo a sério demais para desperdiçar.
Nunca sou de “rodinhas soltas”.
Prefiro relações que tenham função,
sentido,
estrutura.
Posso dizer, com honestidade dolorosa,
que muitas das minhas amizades são utilitárias.
Não no sentido de exploração —
mas de necessidade mútua.
Eles me complementam.
Me organizam onde sou rígido.
Ou precisam do meu olhar,
da minha ética,
da minha capacidade de ver o que pode melhorar.
E, quando isso acontece,
quando alguém me escuta,
me agradece,
muda algo porque eu apontei…
sinto alívio.
É como se o vínculo se justificasse.
Valorizo profundamente honestidade,
coerência,
palavra cumprida.
Não suporto jogos emocionais,
contradições repetidas,
ambiguidade ética.
Em grupos, sem perceber,
assumo o papel de referência.
Sou aquele que segura a linha,
que lembra o combinado,
que sustenta o acordo quando os outros oscilam.
Isso me dá lugar.
Mas também me isola.
Quando surge um conflito,
minha primeira reação é corrigir.
Explicar.
Colocar lógica onde há emoção.
Organizar o caos com argumentos.
Faço isso acreditando estar ajudando.
E muitas vezes estou.
Mas às vezes…
esqueço que nem tudo se cura com correção.
Há dores que pedem escuta,
não solução.
Presença,
não ajuste.
E confesso algo que me pesa admitir:
Se um amigo me dá trabalho demais,
se se perde em confusão emocional,
se repete os mesmos erros sem aprender,
algo dentro de mim se fecha.
Canso.
Endureço.
E largo.
Não faço escândalo.
Não confronto.
Apenas me afasto.
Digo a mim mesmo que é por sanidade,
por limite,
por maturidade.
Mas lá no fundo sei:
é também medo.
Medo de entrar num território
onde não sei como ajudar,
onde não posso consertar,
onde minha ética não resolve.
Então escolho vínculos onde sou útil.
Onde faço sentido.
Onde meu amor pode vir na forma que sei dar.
E sigo aprendendo, lentamente,
que amizade não é oficina,
que afeto não é projeto,
e que talvez alguém possa ficar
mesmo quando eu não sei
como melhorar nada.
Meu medo central não é pequeno.
Ele é existencial.
Tenho medo de ser mau.
Não mau por fora —
mas por dentro.
Medo de haver em mim
algo torto,
algo corrompido,
algo que, se visto de perto,
me tornaria indigno de respeito,
de amor,
de confiança.
Tenho medo de ser injusto.
De errar no julgamento.
De ferir alguém acreditando estar certo.
De usar a ética como espada
e depois descobrir
que cortei onde devia cuidar.
Tenho medo da corrupção silenciosa —
não a que escandaliza,
mas a que se infiltra:
um pequeno desvio,
uma concessão moral,
um “só dessa vez”
que, aos poucos,
me afastaria de mim.
Esses medos não gritam.
Eles vigiam.
Vivem em mim como um juiz incansável,
acordado antes de mim,
avaliando cada gesto,
cada palavra,
cada intenção.
E é aí que começa meu sofrimento maior.
Sou duro comigo.
Implacável.
Não descanso naquilo que faço bem.
Reviso mentalmente cada erro,
cada falha,
cada momento em que não fui o melhor que podia.
Quando erro —
mesmo em coisas pequenas —
não sinto apenas culpa.
Sinto ameaça.
Como se o erro dissesse:
“Viu? Não és quem pensavas.”
Aceitar que errar não me torna indigno
é uma das tarefas mais difíceis da minha vida.
Porque, por muito tempo,
acreditei que só merecia paz
se fosse irrepreensível.
Minha sombra não é a raiva.
A raiva eu conheço,
controlo,
organizo.
Minha verdadeira sombra
é o autojulgamento constante.
É essa voz que nunca se cala.
Que não celebra.
Que não perdoa.
Que exige pureza onde só é possível humanidade.
E o que mais dói
é perceber que fiz de mim
o réu eterno do meu próprio tribunal.
Hoje começo a aprender —
com esforço,
com tremor,
com humildade —
que justiça sem compaixão
vira crueldade.
E que talvez o gesto mais ético
que posso oferecer ao mundo
seja, finalmente,
parar de me condenar.
O prazer e a intimidade sempre foram — e ainda são — um território sensível para mim.
Antes de qualquer aproximação, preciso sentir que mereço.
Que sou aceito como sou.
Que o outro realmente quer estar ali —
e que se preparou para esse encontro.
Detalhes pequenos se tornam enormes.
O hálito.
O cheiro do corpo.
A roupa íntima esquecida, fora de ordem.
Uma sensação mínima de desleixo
é suficiente para que algo em mim se feche.
Não é capricho.
É defesa.
Meu desejo é delicado
e vive sob vigilância.
Qualquer sinal de “imperfeição”
pode me retirar do corpo
e me lançar para a cabeça.
Há momentos em que simplesmente brocho —
não por falta de atração,
mas por excesso de controle.
Por isso, muitas vezes, prefiro não me expor.
Evito.
Adio.
Me escondo atrás da compostura.
Aceito: sou problemático nesse ponto.
Não me orgulho.
Mas reconheço.
Descansar, para mim, sempre soou como concessão.
Silenciar, como risco.
Meu corpo guarda isso.
Mandíbula apertada.
Peito firme demais.
Respiração contida.
O prazer defensivo é controle.
Manter tudo limpo, certo, previsível.
Sem surpresas.
Sem falhas.
O prazer integrado…
esse começa quando ouso permitir.
Quando aceito que o encontro humano
vem com cheiros, falhas, improvisos.
Quando não preciso merecer —
apenas estar.
Ainda estou aprendendo.
Mas cada vez que afrouxo um pouco a vigilância,
meu corpo lembra
que prazer não é prêmio por correção,
é consequência de presença.
Meu dom é o discernimento.
A clareza ética.
A capacidade de melhorar sistemas, pessoas, processos.
Sirvo ao mundo trazendo integridade.
Sou confiável.
Sou justo.
Mas esses dons nasceram da dor
de nunca me sentir suficiente.
quando algo em mim relaxou.
Não foi uma derrota.
Foi um alívio.
Percebi, com uma alegria silenciosa,
que minha rigidez
não estava salvando ninguém —
nem a mim.
Eu tinha acreditado, por tanto tempo,
que manter tudo correto
era um ato de amor.
E, de repente, vi:
era também uma forma de medo.
Quando reconheci isso,
meu corpo respirou diferente.
O peito cedeu um pouco.
A mandíbula soltou.
O mundo não desabou.
Houve um instante luminoso
em que entendi:
minha criança interior
não precisava ser corrigida,
nem ajustada,
nem melhorada.
Ela só precisava ser acolhida.
E ali nasceu uma alegria nova —
não eufórica,
mas verdadeira.
Uma alegria limpa,
como quem finalmente pode sentar
sem estar em prontidão.
Aprendi que bondade
não nasce da perfeição,
mas da compaixão.
E que a ética mais profunda
não é a que julga,
é a que cuida.
Hoje, quando erro,
não me condeno imediatamente.
Respiro.
Escuto.
Aprendo.
Descobri que posso ser justo
sem ser duro.
Responsável
sem ser cruel comigo.
E isso me trouxe algo inesperado:
leveza.
Uma leveza discreta,
mas persistente.
Como a alegria de viver
sem estar o tempo todo
me corrigindo para existir.
Reconheço o silêncio do Tipo 5,
a entrega do Tipo 2,
a alegria do Tipo 7,
a força do Tipo 8,
a paz do Tipo 9.
Já não preciso ser apenas correto.
Posso ser inteiro.
Sou Tipo 1 —
mas não sou apenas um tipo.
Hoje caminho menos tenso.
Mais humano.
Mais justo comigo.
Não para ser perfeito,
mas para ser verdadeiro.
E, nesse gesto simples,
algo em mim
finalmente descansa.
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